O delegado Jeremias Callado, personagem principal da trama, acorda desmemoriado no meio de um deserto seco e sem vida quando é resgatado por dois alferes de um pequeno vilarejo chamado Serendipidade. Ao chegar no povoado, Jeremias descobre que sua caravana foi atacada pelo bandido conhecido como Severino Um-Tiro, que por anos vaga pelo estado, aterrorizando e matando todos que cruzam seu caminho. Sedento por vingança, Jeremias decide seguir o jagunço, mas por uma série de motivos se vê obrigado a assumir as rédeas da justiça local.

As decisões administrativas do estado de Caron são, em sua grande maioria, ignoradas pela jurisdição do vilarejo. Em Serendipidade, reina a justiça do Punho – cinco coronéis, cinco dedos que, quando em consenso, se fecham em uma mão pesada e implacável. Trabalhando ao lado de Venâncio Galdino, o homem encarregado de estabelecer a paz entre os coronéis, Jeremias Callado começa a questionar sua condição atual e as regras e normas daquela terra sem justiça. Juramentos de sangue, intrigas políticas, rivalidades familiares e desavenças pessoais; tudo cai sobre a responsabilidade de um homem que nada se lembra de seu passado a não ser as cicatrizes de seu embate com Severino Um-Tiro.

Direto do universo do cinema para o da literatura, Ian Fraser é um apaixonado pelas narrativas de ficção. Com formação em Comunicação Social com ênfase em Cinema e Vídeo, o autor publica seu primeiro livro pelo selo baiano João Ubaldo Ribeiro, O Sangue é Agreste, através do prêmio Jovem Autor Inédito, concedido por edital local. A história de um homem perdido em suas próprias memórias apresenta um clima western, ambientado no sertão, e traz em sua narrativa todas as referências que Ian traz da sua formação cinematográfica.

Aconselhado por um colega escritor, Ian Fraser decidiu transformar em romance suas ideias para roteiros de filmes. A instabilidade da produção cinematográfica lhe fez abrir os olhos para uma constatação simples: “fazer um filme custa tempo e dinheiro, escrever um livro só custa tempo”, como afirma o próprio autor. A partir disso, surgiu a ideia de Os Livros do Sertão, do qual O Sangue é Agreste é o primeiro volume, que conta ainda com A Carne é Seca e O Osso é uma Promessa. Dividir a história em três partes tem um objetivo claro: refletir sobre essa tríade que vivemos constantemente, o que fazemos com o hoje, o que fazemos quando revisitamos o ontem e o que esperamos / planejamos para o amanhã. O caminho foi trabalhar essas ideias pelo viés de um herói marcado pela ausência de memória.

As referências de Ian Fraser, notórias em O Sangue é Agreste, vão desde ícones do cinema como Alfred Hitchcock a grandes da literatura como Gabriel Garcia Márquez e J.R.R. Tolkien. Mas foi o livro Areia nos Dentes, de Antônio Xerxenesky, que inspirou o autor a brincar com a narrativa, explorando diferentes formatos e fugindo da estrutura convencional de um romance. Em O Sangue é Agreste, Ian Fraser busca recursos como ilustração, roteiros de cinema, cordel e poesia, para marcar as ações dos seus personagens de forma criativa e envolvente. “Assim o meu livro ficou mais cinematográfico”, declara.

Ian Fraser se divide agora entre a escrita dos outros dois volumes d’Os Livros do Sertão e entre os projetos do Artesania, grupo artístico do qual faz parte e que promove espetáculos teatrais, palestras e workshops, entre outras ações. Trabalha também no Colégio Anglo-Brasileiro (Salvador/BA) à frente do Núcleo de Áudio e Vídeo e do acervo imagético da empresa. Talvez sua atividade mais próxima do cinema, Ian acredita que a edição de imagens lhe faz ver que ele sempre contou histórias. “Gosto muito de editar, cortar frames, achar as melhores cenas, colocar ritmo, corrigir erros, influenciar a experiência do espectador; de certa forma sempre escrevi, mas até então não usava palavras”.

O autor já está também na fase de produção do seu próximo livro, um romance de fantasia chamado Araruama. Trata-se de uma obra épica fantástica nos moldes da saga do Senhor dos Anéis, mas que se passa em uma re-imaginação da América Latina antes do descobrimento. Voltada para os jovens-adultos, a história traz elementos das culturas maias, astecas e incas misturadas a bororo, xavante, guarani e pataxó, criando uma mitologia própria, assim como Tolkien fez com a cultura nórdica.

EM BREVE

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